BORSCHT SANGRENTO NOS URAIS

Não havia falta de conspirações na Rússia em 1959. Khrúshchov vinha de denunciar os crimes de Stálin três anos antes, mas só tomara o poder definitivamente em 1958, o que em termos de política soviética significa pelo menos mais meia década de acertos de contas e borscht sangrento. Difícil imaginar que vida levavam os estudantes da Politécnica de Ural nesse contexto, mas o fato é que em janeiro daquele ano um grupo de dez alunos do instituto, liderados por Igor Dyatlov, de 23 anos, partiu numa viagem de esqui pelos Montes Urais, com o objetivo de atingir o monte Otorten, supostamente muito bonito a cinquenta graus negativos.


Marcharam em seus esquis até a última cidade habitada, onde um membro do grupo adoeceu e ficou para trás. A partir daí, caminharam mais uns dias até a base do Kholat Syakhl (“Montanha da morte”, no duro) e foram cruzar a passagem. Bateu um tempo ruim, o grupo ficou desorientado e eles acabaram subindo a montanha sem perceber. Quando se deram conta, já estavam no topo, e resolveram acampar até que o tempo melhorasse. Eles deveriam estar de volta em mais ou menos duas semanas, mas não apareceram. O acampamento só foi encontrado quase um mês depois, após a habitual omissão das lideranças locais, seguida de choro e escândalo dos familiares, e o subseqüente envolvimento do exército, helicópteros e polícia secreta.


A barraca estava rasgada de dentro para fora, e os primeiros dois corpos foram encontrados a cerca de dois quilômetros dali. Eles estavam descalços, só com as roupas de baixo, ao lado do que parecia ser uma fogueira malsucedida. Um dos esquiadores tinha tentado subir numa árvore. Perto dali, mais três corpos, também vestidos em trapos, como se tivessem tomado as roupas uns dos outros conforme congelavam. As autoridades concluíram que eles haviam morrido de hipotermia, inclusive o sujeito encontrado com uma bota só.


Tudo indicava que tinham saído às pressas da barraca, em direção ao frio abissal e à morte certa. Não havia sinais de brigas, pegadas de estranhos, nada que justificasse. Só foram encontrar os quatro corpos restantes dois meses depois, enterrados na neve. Estavam mais bem vestidos, todavia o crânio de um dos esquiadores estava esmagado, os outros dois tinham arrebentado a caixa torácica e a única mulher do grupo perdera a língua. Tudo isso sem que houvesse qualquer machucado ou sinal de batida sobre a pele. Um médico que examinou os corpos na época disse que eles precisariam ter sido atropelados para ficar daquele jeito. Nem um roxo.


A autópsia teria encontrado radiação nas roupas. Os familiares disseram que os corpos estavam alaranjados no velório. Testemunhas relataram ter visto estranhas luzes voando sobre a passagem da montanha. Uma fonte anônima afirmou que o governo estava testando mísseis na região e alguém sugeriu que eles haviam sido atacados por índios. A área foi fechada e o Incidente da Passagem de Dyatlov, como ficou conhecido, foi encoberto pelo exército e enterrado nos arquivos de algum ministério obscuro, o que por sua vez automaticamente valida todas as teorias anteriores.


Tivesse o governo falado algo como, olha, nós também estamos realmente confusos e vamos tentar entender o que aconteceu, mas ninguém está prometendo nada aqui, e não estaríamos discutindo o incidente até hoje. Ainda assim, para cada conspiração bem fundamentada, há sempre alguém brandindo a Verdade, querendo provar que as coisas foram mais simples do que parecem, que não houve nada de tão extraordinário na história e outras manifestações de fraqueza de espírito. No caso do incidente, que os ferimentos podiam sim ter sido causados durante a correria no escuro, que o descoloramento do corpo e a ausência de língua eram perfeitamente naturais e que não havia radiação suficiente para causar dano e nem conspiração nenhuma.


O que só serve para provar que a verdade é superestimada, cada um dá de comer para a ficção que bem entende e seguimos assim. Na internet, por outro lado, o freqüentador de fóruns apocalípticos PipThePipster sugere que a freqüência do vento na passagem Dyatlov teria causado uma vibração interna nos corpos dos esquiadores e destruído seus ossos e os levado à loucura. Grande Pip.


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