A medida de sucesso é variável e inconstante. Para alguns, significa apenas tapar o muro da necessidade com o trabalho, acumular umas coisas aqui e ali, ter um Monza vermelho, conhecer Ubatuba. Para outros, o sucesso está frontalmente ligado ao amor, seja ele sensual, afetivo ou verdadeiro. Sucesso no amor, sucesso na vida. E há mais facções, como a que só se considera bem-sucedida quando supera limites físicos ou emocionais. É o introvertido que não vomita no primeiro encontro, o brutamontes que chora, o tísico que chega ao fim da maratona.
A cada indivíduo, nos dizem, cabe tanto uma medida quanto uma fração de sucesso. Só que a fração, obviamente, quase nunca bate com a medida. O sujeito quer muito e tem pouco. Ou tem muito, mas não sabe o que quer. Vai saber.
Feliz daquele que abraça a ruína e aceita o fracasso. Daquele que sabe celebrar a derrota extrema, completa, mas também as pequenas derrotas do dia-a-dia, como errar a senha do caixa ou escrever um e-mail longo que ninguém vai ler. Dos que, por vontade consciente, não tiram lições do fracasso, não aprendem com ele e seguem fracassando.
No museu do Livro dos Recordes, em São Francisco, nos Estados Unidos, há uma estátua, ou pelo menos havia, de um sujeito que conseguiu empilhar nove bolas de golfe, ali pelos anos 40. Ele está de terno tweed, cenho franzido, cotovelos apoiados na mesa, tomando coragem para tentar a última bola. Tudo em tamanho natural, tudo muito dramático. A idéia é comemorar a habilidade do recordista, e colocá-lo em equivalência com seus pares (o homem mais alto, o mais gordo etc.). O que sobressai é o imenso fracasso do gênero humano, a combinação de esforço coletivo e vontade pessoal que nos leva à derrota perene, o nosso gosto pela coisa.
Não há derrota maior do que passar anos (ou meses, dias, dez minutos que sejam) empilhando bolas de golfe. E ainda assim, ali diante do homem do tweed estava o pináculo de toda uma vida de realizações (certamente extraordinárias, de um modo ou de outro), um monumento à nossa força de vontade e à nossa imensurável, contente e bem-vinda estupidez. Gosto de imaginar que o homem do tweed tinha plena consciência disso, e de que aceitava o seu destino no museu do Livro dos Recordes.
Puxando para o marxismo de caserna, o homem do tweed representa uma espécie de duplo caráter do fracasso: ora é o fracasso concreto e útil, que produz uma sensação de vitória, de completude, ora é o fracasso abstrato, que automaticamente se transforma em fracasso social, em geléia de fracasso humano, e é justo esse fracasso que o homem do tweed parece tão bem aceitar.
Pode-se dizer o que quiser da teoria marxista do valor, mas é inegável o fato de que todo sucesso traz em si o gérmen do fracasso, e de que cada pequena vitória é um degrau a mais rumo à derrota completa. Donde, invertendo-se a equação, concluímos que cada derrota bem assimilada é uma conquista pessoal, e que cada fracasso coletivo é um êxito do grupo, um indicador de que estamos no caminho certo.
O mundo moderno está pleno de oportunidades para o fracasso. Na chamada rede mundial de computadores, já é possível fracassar em escala planetária, e quem sabe que surpresas uma ida ao mercado nos reserva? O fracasso não é uma opção de vida, como o vegetarianismo, e sim uma realidade concreta (e às vezes abstrata). Tampouco é preciso ler manuais (“O fracasso a qualquer preço!”) para alcançá-lo. Na verdade, não é preciso fazer nada. O fracasso está aí, basta abrir os olhos e, com um pouco de sorte, antes mesmo do almoço a ruína já estará completa.
Brasil Econômico - Caderno Outlook