O sujeito chega ao caixa-eletrônico para sacar seu dinheirinho. Insere o cartão e, como sói acontecer quando estamos apertados ou com pressa, a máquina engole a tarjeta, se recusa a expelir dinheiro, fica birrenta e temperamental. O sujeito apela ao telefone de emergência, reclama com a atendente e, só então, a máquina devolve o bicho, com um notável sorriso de escárnio.
Por trás das engrenagens, a história é outra. O cartão, ao ser inserido, não chega ao leitor propriamente dito. Antes, o Gênio do Crime inseriu um segundo leitor, que trava o cartão e copia as informações da tarja magnética. Ao mesmo tempo, um telefone celular montado dentro do caixa intercepta a ligação para a atendente e repassa a uma central clandestina, onde os amigos do alheio ludibriam o incauto (e apertado) correntista a digitar sua senha, códigos de segurança, data de aniversário.
O esquema foi desarmado há duas semanas, em São Paulo, e o líder da gangue, descobriu-se, vinha de outros estelionatos igualmente artísticos, cheios desse charme contemporâneo do qual o golpe do caixa parece se beneficiar. Porque um sujeito que bola um cambalacho desses pode qualquer coisa: trabalhar na bolsa, ser engenheiro civil, piloto de avião. Ele escolheu projetar o aparato — todas as peças eram de fabricação própria —, treinar os comparsas, enfim, certamente havia uma lousa no escritório onde o plano foi armado, o que diz muito sobre o perpetrador.
Do ponto de vista estético, não consigo pensar em atividade criminosa mais inspirada. Saem o estilete enferrujado e o chamado trombadinha metropolitano, para dar lugar a um roubo de tons cosmopolitas, um engodo de alto calibre. Fosse um pouco mais empreendedor, o Gênio do Crime poderia ter negociado de antemão os direitos cinematográficos de seu feito. Mas obviamente trata-se de uma mente sofisticada.
Basta lembrar-se dos dois audaciosos ladrões do Kentucky, Estados Unidos, que em 1998 tiveram a mesma idéia — roubar um caixa eletrônico —, com resultados não tão satisfatórios. Para abrir o caixa, amarraram uma corrente no para-choques da picape e outra no cofre. Quando aceleraram, o caixa foi mais forte e arrancou o para-choques. Apavorados, os dois abandonaram a cena do crime. Deixando para trás, é claro, o para-choques com a placa do carro. Não há estupidez que uma boa temporada na cadeia não cure.
E a polícia reage como pode. Na semana passada, o Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos) invadiu a favela de Heliópolis e prendeu cerca de 25 traficantes. A operação foi o resultado de sessenta dias de mapeamento da favela, por um agente infiltrado. O agente, para ter acesso livre às ruas e fotografar os pontos de venda, se disfarçou da única maneira possível naquele ambiente do crime: candidato a deputado.
Cosme da Vila, candidato por um certo PLM, e com a legenda 70.171 (em referência ao código da polícia para estelionato), passou dois meses com seus cabos eleitorais (todos eles tiras) conhecendo a favela. Segundo a reportagem de André Caramante, da Folha de S.Paulo, Cosme distribuiu santinhos, fez promessas, cumprimentou eleitores. No dia da operação, o falso candidato e seus correligionários tomaram o morro de assalto. É possível ver os bandidos perplexos, mãos na cabeça, “mas oras, ele não era um de nós?”.
Àquele que almeja uma vida de bandoleiro, todavia, não há modelo de conduta maior do que o italiano Leonardo Notarbartolo, uma das grandes mentes criminais de nossa era. Notarbartolo poderia ter sido campeão de xadrez, mas decidiu especializar-se, desde os seis anos, no crime. Depois de uma carreira solo de considerável sucesso, tornou-se também um dos responsáveis pelo Grande Roubo de Diamantes da Antuérpia, a mãe de todos os assaltos, um criativo roubo que rendeu aos seus responsáveis algo na casa dos 100 milhões de dólares, ainda desaparecidos.
O caso deu-se em 2003, na Antuérpia, cidade na Bélgica por onde passam cerca de 80% dos diamantes comercializados no mundo. O alvo eram as caixas de depósito do Diamond Center, tão seguras que os próprios assaltantes tinham conta na casa. Depois de meses de planejamento, que incluíram a montagem de uma réplica em tamanho real do cofre, Notarbartolo e seus comparsas (o “Rei das Chaves”, o “Monstro”, o “Gênio” etc.), venceram as dez camadas do alarme (quarto obstáculo: campo magnético detector de movimento) e tomaram o butim, deixando para trás mais milhões de dólares, que eles simplesmente não tinham como carregar.
Notabartolo foi preso (injustamente, diga-se. Merecia cada centavo), mas até hoje ninguém sabe se tudo não passou de um elaborado golpe na seguradora, ou se ele tinha mesmo ligações com a máfia e era um dos mandantes do roubo. Daqui a uns poucos anos, Notarbartolo estará livre e, torçamos, poderá desfrutar de sua pequena fortuna escondida, enquanto nós camelamos achando que está tudo bem. A ver.
Brasil Econômico - Caderno Outlook