Eu tive um colega durante o colegial, um sujeito com um apelido engraçado, Toneleira, uma coisa assim, cujo pai era completamente obcecado por montanhas-russas e parques de diversão. Uma vez por ano ele pegava esse meu amigo — sempre envolvido em projetos maiores, como arremessar quibes no ventilador da sala — e ia com ele atrás de alguma montanha-russa bacana pelo mundo. O Toneleira sabia de fabricantes de atrações, dos parques mais quentes, da melhor queda-livre da Europa meridional. Quando estava em São Paulo, bem, em certo ponto ele teve de fugir de São Paulo, então você vê.
Não havia duas personalidades mais distintas. De um lado, o delinqüente juvenil clássico, com aspirações científicas (era tido como o mago do chá de fita VHS) e mercantis (ver episódio da fuga), de outro esse camarada que uma vez por ano vai a um parque de diversões todo colorido, pega fila com um monte de gente vestindo boné do Pateta, joga os braços pra cima e despenca de olhos fechados e berrando fininho. E não é que ele ia abertamente a parques de diversões, não me lembro de ter ouvido ele contar isso em público, mas éramos vizinhos e ele de vez em quando me dava carona.
A figura mais estranha da história, todavia, é esse pai. Que tipo de prazer perverso ele tira das montanhas-russas, e o que o leva a investir uma pequena fortuna na busca da xícara-maluca perfeita? Se há algum entrave psíquico, que poderoso trauma infantil degenerou-se nesse comportamento atípico e suspeito? Por outro lado, se foi mesmo um trauma (e foi, é evidente), talvez ele esteja melhor assim. Podiam tê-lo colocado numa análise, feito testes e tratamentos, e é provável que ele tivesse superado a psicose ainda jovem. Nesse caso, não haveria necessidade das viagens anuais, obliterando o ser vital do pai e conduzindo meu amigo Toneleira para a mais absoluta delinqüência.
Não sei se é culpa do cinema ou do esporte, mas as pessoas vivem querendo superar traumas, limites, e dão toda uma cena quando conseguem. Eu fiz aula com um camarada — o único professor particular que expulsava alunos da sala — cuja mãe tinha medo de tudo. Ela não olhava da janela do segundo andar por medo de altura, não andava de elevador porque era muito fechado, não se dirigia ao outro porque o outro é o Inimigo. Quando criança, o professor reagiu como podia: se trancando no armário para vencer a claustrofobia, se pendurando na janela para se livrar do medo de altura e, em certo ponto, mastigando um inseto para vencer o medo de baratas.
Veja bem. Ninguém precisa mastigar baratas, escalar montanhas, passar doze dias fazendo embaixadinha. Chega em casa, apaga a luz, chora um pouco e pronto. Come uma casquinha de baunilha e dá uma volta no quarteirão. Sei lá. O trauma psicológico profundo é completamente superdimensionado, e essas cicatrizes emocionais severas podem ser convertidas em benesses psíquicas, como a viagem anual em busca da montanha-russa perfeita.
Ou se pode apelar à chamada Solução Burton. Robert Burton foi um vigário inglês que viveu no início do século XVII, sempre cabisbaixo. Para superar a melancolia extrema, passou a catalogar tudo que encontrasse sobre o assunto. O livro, Anatomia da melancolia, foi publicado em 1621, sob o pseudônimo de Democritus Junior. Tem para lá de 1400 páginas, e investiga, ao longo dos séculos, as causas, os efeitos e as maneiras de se combater essa nossa tristeza coletiva. Há receitas, diagramas, citações infinitas, tudo é minuciosamente investigado. Em certo momento, ele sugere que se coma bastante alface. Em outro, diz que o amor tiraniza o homem. No fim, a conclusão é a mesma: nunca é fácil, para ninguém.
Quando eu era moleque, fui com um amigo e os pais dele até a Cidade da Criança, parque de diversões no estilo ano do voluntariado que ficava a quarenta minutos da cidade. Sabe-se deus quantas das minhas (inúmeras) fobias não se devem a essa viagem ao coração do ABC paulista, e a esse parque semi-abandonado e que abrigava a mais terrível das Mongas. Ainda assim, estamos aí, com dificuldade para andar de avião e pavor patológico de mariposas, mas comendo muito alface e sem tiranizar ninguém.
Brasil Econômico - Caderno Outlook